‘Os lojistas de shoppings estão em uma grande sinuca de bico’, diz Alexandre França

O superintendente da Associação de Lojistas de Shopping Centers de Minas Gerais (Aloshopping-MG), Alexandre França, está pessimista em relação ao futuro de 80% dos lojistas dos mais de 40 empreendimentos do tipo no Estado – donos das chamadas “lojas satélites”.

Além da gigantesca queda nas vendas em razão da pandemia ao longo de 2020 e do fim dos auxílios governamentais e do novo fechamento do comércio não essencial na capital mineira, neste início de 2021, França destaca a postura das administradoras de shoppings como um grande risco para o setor.

Após dar descontos significativos nos custos dos lojistas, no ano passado, abrindo mão de receitas, os malls parecem dispostos a voltar a praticar valores cheios, mesmo sem que a crise tenha sido sequer reduzida. “Prevemos uma grande insolvência dos comerciantes”, diz.

Os shoppings ajudaram os lojistas no início da pandemia?
Em março do ano passado, quando o comércio de BH fechou pela primeira vez, os shoppings da cidade foram até sensíveis, mas porque viram que não tinham muitas alternativas. Eles sabiam que poucos lojistas contavam com capital de giro para garantir os custos. Tirando as grandes redes, é possível contar nos dedos os empresários mineiros do setor que têm esses recursos. Além disso, a maioria das lojas de shoppings, as chamadas lojas-satélites, são também as mais sofridas que acabam pagando pelas grandes. Não tem uma coisa, podemos dizer, honesta na relação. Os pagamentos são cobrados pelos administradores de acordo com a cara do cliente. Depende do mix de produtos, se aquilo interessa ou não ao mall, e a marca também conta. Tem todas essas variáveis na negociação.

Que medidas eles adotaram, favoráveis aos locatários?
Pois é. Naquele momento, eles não cobraram aluguel e cobraram apenas 50% do condomínio. Vale explicar que são três os custos inerentes ao lojista de shopping: aluguel, condomínio e o chamado fundo de promoção. No caso do aluguel, tem lojista que paga pelo percentual sobre as vendas apenas e tem lojista, a maioria deles, na verdade, os donos das lojas-satélites, que paga um aluguel mínimo. Só que esse aluguel mínimo é muito caro. Os shoppings jogam lá em cima porque sabem que o empresário não fatura quantias que poderiam justificar a cobrança do aluguem pelo percentual de vendas.

O senhor poderia explicar essa matemática? 
Tomemos um exemplo: o contrato de um lojista é de aluguel de R$ 10 mil mais 6% sobre as vendas, apenas quando esse percentual superar o primeiro valor. Se esse lojista vende R$ 100 mil em determinado mês, ele paga o aluguel de R$ 10 mil e não paga o percentual de vendas, porque 6% seriam R$ 6 mil. Mas, se ele fatura R$ 200 mil, ele paga o aluguel de R$ 10 mil mais R$ 2 mil referente à diferença entre os 6% sobre as vendas, que seriam R$ 12 mil, e o valor mínimo fixado em contrato, R$ 10 mil. Ou seja, paga, no total, R$ 12 mil. É uma lógica que sempre foi favorável aos administradores. O mais justo seria pagar aluguel exclusivamente sobre percentual sobre vendas, o que não acontece com as lojas-satélites, apenas com os grandes empreendimentos.

Voltando aos benefícios dados em 2020…
Então, até o ano passado, com shoppings fechados, os administradores, repito, não porque foram bonzinhos, mas porque viram que se não agissem assim, perderiam centenas de lojistas, abriram mão do aluguel e deram os descontos de 50% nos condomínios por um tempo. Mesmo assim, houve uma quebra de 10% das lojas. A gente esperava muito mais diante da retração nas vendas em razão da pandemia, mas, como o valor cobrado ficou muito baixo, os comerciantes conseguiram tocar o barco, vendendo pela Internet, por exemplo. Quando as atividades voltaram a ser permitidas, ainda em 2020, os shoppings também retomaram as cobranças, mas não totalmente.

Também chamaram os lojistas para renegociar?
Sim, E fizeram isso daquela forma que mencionei: dando mais descontos aos que interessavam a eles e menos aos que não interessavam. Porque é desse jeito que funciona. E foi assim com os comerciantes dos principais shopping da capital, como o BH, o Diamond Mall e o Pátio Savassi, do grupo Multiplan. Aliás, o mais difícil para mexer. O único shopping que continuou praticando apenas percentual sobre vendas para fixar o aluguel para todos os lojistas, de maneira bem linear, foi o Itaú Power, em Contagem. E eles ainda não cobraram o 13º aluguel.

Os demais cobraram esse aluguel dobrado no fim do ano, mesmo com queda enorme de vendas no decorrer do período?
Isso mesmo. Antigamente, os comerciantes vendiam o dobro no Natal e isso justificava esse 13º. Mas, hoje em dia, isso acabou. Vendemos, no máximo, 30% a mais em dezembro. O que torna injustificável a cobrança dobrada. Ainda mais em ano tão atípico, com pandemia e tudo. Houve alguns shoppings que cobraram 50% do aluguel dobrado em dezembro, para ser ago agora em janeiro. Mas o único que isentou qualquer valor extra foi mesmo o Itau. Já o Multiplan, que também já mencionei, cobrou o 13º total.

E neste início de ano, como está a situação?
A maioria dos shoppings voltou com os mesmos valores das cobranças, valores cheios, e fazendo negociações somente caso a caso, privilegiando alguns clientes em detrimento de outros. Lembro que agora em janeiro, além de o prefeito ter fechado todo o comércio não essencial de novo, as vendas vêm em uma tendência acentuada de baixa, não temos mais aquela “demanda artificial” do ano passado, que foi o auxilio-emergencial – algo que ajudou muito, principalmente quem vende pela Internet e especialmente os grandes players, como Casas Bahia, Renner, Americanas, Magalu etc. Para a maioria dos lojistas, a sensação é de caos total. Nos shoppings, sobretudo, os custos começam o ano altíssimos. Se as administradoras não repetirem os descontos do ano passado, e eu acredito que não farão isso, a previsão é de um cenário terrível.

O que poderia acontecer?
Podemos ter um fechamento em massa de lojas de shoppings. Além de tudo o que já disse, devo acrescentar que também não temos mais linhas de financiamento, como o Pronampe, do ano passado, nem ajuda na parte trabalhista, como a possibilidade de suspensão de contratos e redução de jornadas. E os comerciantes não conseguem demitir os funcionários porque não têm dinheiro para pagar indenizações. Os grandes também vão sofrer, com desemprego em alta e renda das famílias em queda, mas os pequenos e médios lojistas, que representam 80% dos estabelecimentos dos shoppings, estão em uma grande sinuca de bico.

O Pronampe, que foi solução por um tempo, pode tornar-se mais um problema, diante desse quadro?
Sim. O Pronampe, para dar capital de giro com condições especiais ao setor produtivo durante a pandemia, não ajudou a todos, é verdade, mas ajudou muitos lojistas em dificuldades durante 2020. A questão é que acabou a carência para os que pegaram os financiamentos e as parcelas começam a vencer agora em abril. Ou seja, com dívidas apagar, sem faturamento, porque mesmo que os pequenos e médios se empenhem nas vendas on-line, o resultado não é o mesmo, sem ajuda governamental e demanda artificial, como foi o caso do auxílio-emergencial, e com ops custos dos shoppings em valores cheios, a dificuldade torna-se ainda mais extrema. Podemos chegar a uma grande e generalizada insolvência. Precisamos de soluções, urgentemente.

O senhor diria que a falta de capital de giro pode gerar quebradeira? 
Os pequenos e médios lojistas sempre tiveram muito pouco capital de giro. E nos shoppings a situação é pior por causa dos custos, que já eram altos, antes da pandemia, uma coisa irreal, e agora estão sufocantes. Certos empreendedores não querem abrir mão das negociações caso a caso. Fazem negociação um a um, não têm uma política coerente. E isso é muito grave e me faz antever que o cenário deve se complicar bastante.

Com informações do Hoje em Dia