Brumadinho: Lama ameaça futuro de indígenas Pataxos Ha Ha Hae

Rituais sagrados de indígenas ficaram inviáveis após rompimento de barragem; cultura da subsistência fracassou para etnia que vive às margens do Paraopeba, contaminado

A estiagem prolongada rachava o terreno no sul da Bahia, castigando animais e comunidades que batalhavam pela sobrevivência diariamente, em casas de madeira e pau a pique. Largados à própria sorte, cerca de 200 indígenas Pataxó Hã Hã Hãe decidiram deixar a terra querida e recomeçaram a vida em uma reserva florestal até então abandonada, às margens do rio Paraopeba, em São Joaquim de Bicas, na região metropolitana de BH. O ano era 2017. A nova aldeia foi batizada de “Naô Xohã” – que significa “espírito guerreiro” na língua-mãe da comunidade. “Chegamos aqui para preservar nossa cultura e também a natureza. Os animais silvestres e o rio precisavam muito do apoio do povo indígena”, conta o cacique Hayó Pataxó Hã Hã Hãe.

No entanto, em 25 de janeiro de 2019, o inimaginável aconteceu: a quase 25 km da aldeia, rompia a barragem da Vale na mina de Córrego do Feijão, em Brumadinho. Em poucas horas, as águas do Paraopeba eram contaminadas pelos rejeitos da mineração e ganhavam coloração avermelhada. “Vimos os peixes boiando, capacetes, portas e materiais de casas descendo o rio. Foi um momento muito triste”, lembra ele, um dos entrevistados por O TEMPO para esta série de reportagens que é publicada desde a última segunda-feira, sobre o atual cenário em Brumadinho, dois anos após a tragédia.

Novamente esquecidos e sem conhecimento sobre os riscos da lama que tomou conta do leito, os indígenas continuaram consumindo as águas do entorno por mais três dias – a contaminação do líquido por metais pesados atingiu até 100 m após as margens do rio –, até que foram avisados sobre os riscos.

Crianças, idosos e adultos sentem os efeitos da contaminação pelos metais pesados até hoje. “Muitos têm problemas nos rins, feridas pelo corpo, mal-estar, dores de cabeça e pressão alta”, relata a liderança Ãngohó Pataxó Hã Hã Hãe, mulher do cacique. “Não podemos mais fazer nossos batizados (no rio), tão sagrados para o nosso povo”, lamenta.

Confecção de máscaras ajuda a completar auxílio

Após o rompimento, com contaminação da água do Paraopeba, as lavouras de milho, abóbora, feijão-de-corda e amendoim acabaram, e parte da comunidade precisou passar a viver em aglomerados de BH, em casas pequenas, situação que piorou ainda mais com a pandemia. “As pessoas têm nos acolhido, mas ali não é o nosso lugar. Não estamos acostumados a viver dessa forma, as crianças e idosos estão doentes”, emociona-se Ãngohó Pataxó Hã Hã Hãe.

Sem a abundância do Paraopeba, o grupo passou a fazer máscaras artesanais e conta com auxílio da Vale para sobreviver – o pagamento deve terminar neste mês.

“Temos que comprar gás, carne, comemos coisas enlatadas, com esse dinheiro mal dá para sobreviver. Queremos manter nossa cultura. A aldeia está largada”, reclamou a liderança.

Mortes de animais e acesso limitado à água do rio trazem mais sofrimento

Cercas de arame instaladas impedem que os pequenos cheguem ao rio. A única motivação para seguir no leito do Paraopeba, segundo o vice-cacique Sucupira Pataxó Hã Hã Hãe – um dos que permaneceram no território –, vem do espírito guerreiro de seu povo. A comunidade também sofre com a morte de animais silvestres que se contaminam com a água, como tamanduás-bandeira, tatus, capivaras e jaguatiricas, que não resistem aos metais que estão no rio.

“Muitos estão em extinção, e vê-los acabando dói o coração. A lama ainda trouxe muitos mosquitos e doenças”, acrescenta. Ele também lembra que a nascente que abastecia o local foi totalmente soterrada. “Agora, recebemos água mineral de oito em oito dias, e isso traz muito lixo. Nosso costume não é assim, é de beber diretamente do local, sentir o sabor do barro”, finaliza, depois de pedir justiça. A etnia indígena conta com 22 famílias na região metropolitana de BH.

Mineradora diz que indígenas são assistidos

Procurada pela reportagem sobre a situação dos indígenas, a Vale informou que realiza “ações contínuas de cuidado” para os que seguem na aldeia e os que “optaram por se mudar” para BH. Segundo a mineradora, são fornecidos 1.500 L de água mineral por semana, além de terem sido instaladas uma caixa-d’água de 10 mil litros e rede para “levar água para as torneiras de cada moradia”, com tudo pago pela Vale.

A mineradora informou que os índios recebem atendimento primário e apoio psicossocial desde janeiro de 2019, inclusive com oferta de exames e consultas especializadas; e que o pagamento emergencial mensal é feito desde abril. “Eles também recebem o valor de uma cesta básica por núcleo familiar e mais R$ 110 correspondentes ao frete para a compra dos alimentos”, complementou.

 

Com informações do OTempo