Lentidão no sistema do Inep frustra alunos à espera da nota do Enem

Estudantes indicam instabilidades no sistema nas redes sociais à noite de segunda-feira (29), e balanço do Inep indica que prova com maior média geral foi a redação, com nota de 588,74

Parada em frente à tela do computador minutos após seis da noite, a escritora Mariana Cardoso Carvalho, 24, não conseguiu acessar o sistema do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) para, finalmente, descobrir se suas notas finais no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) permitiriam que ela ingressasse em uma segunda graduação na educação pública.

Entretanto, duas horas depois, às oito da noite de segunda-feira (29), ela ainda compunha o grupo de estudantes que não conseguiu conferir seus resultados por instabilidades na página do participante – uma sobrecarga no sistema impediu acessos tanto pelo site quanto pelo aplicativo. Ansiedade foi acrescida da frustração, não pelas notas obtidas, mas pelas falhas na página do Inep, que, segundo o próprio instituto, informaria o desempenho individual exatamente a partir de 18h.

“Todo, todo, todo, todo ano acontece essa lentidão no sistema. Eu ainda não sei o porquê de o Inep anunciar que a nota será liberada em tal dia, em tal horário, sendo que todo mundo vai entrar junto e não vai dá para ver. O Inep já teve tempo suficiente para planejar melhor, e a gente tem como ter um sistema melhor… Não consigo acessar a nota nem pelo navegador, nem pelo aplicativo. É um inferno, muita ansiedade”, confessa ela, que pretende submeter as notas no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) com o intuito de ingressar em uma graduação de jornalismo. Por meio das redes sociais, outros estudantes que realizaram a avaliação no fim do mês de janeiro também relataram contratempos para ingressar na página do participante – enquanto uns não conseguem entrar, outros nem ao menos têm êxito ao carregar a página.

Número de redações nota mil cai praticamente à metade

Vinte e oito inscritos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tiraram nota máxima na redação. O número é praticamente metade quando comparado com a quantidade de notas mil na avaliação aplicada em 2019 – importa citar que abstenção na prova feita em 17 de janeiro de 2021, em meio à pandemia de coronavírus, foi de 51,5%, um recorde na história do exame unificado.

A mãe de Mariana foi uma entre os participantes que optaram por não comparecer à prova por precaução sanitária. “Essa edição do Enem foi um balaio de erros. Estudantes votaram no site que prefeririam o Enem em maio, e o governo simplesmente ignorou e decidiu aplicar em janeiro, quando começaram, de novo, a aumentar os casos. Minha mãe faria a prova, mas, como é grupo de risco, ficou muito apavorada e decidiu não fazer. Depois é que nós descobrimos que haveria uma outra data para quem é grupo de risco… Mas, as informações não são divulgadas corretamente”.

Ela também relata como um dos percalços do Enem em meio à pandemia de Covid-19 a acentuação das desigualdades entre os estudantes. Um dos reflexos possíveis pode ser a nota média geral da redação, por exemplo, que caiu se comparados os exames aplicados em 2019 e 2021 – à primeira ocasião, a nota média foi de 592,9, número que caiu para 588,74.

“As desigualdades educacionais foram potencializadas no transcorrer do ano. Escolas públicas não tiveram aulas, então, como é para alunos que estavam no terceiro ano em escolas públicas, e que já tem um ensino deficitária, ficar sem aulas? Alunos de classe média e classe média alta, por outro lado, receberam todo tipo de apoio e puderam se dedicar. Nós estamos na mesma tempestade, mas não no mesmo barco. Para mim, não era nem para ter tido esse Enem”, disparou Mariana, que é formada em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Balanço do Inep

Além da publicação das notas individuais à noite de segunda-feira (29), o Inep também revelou o balanço final do Enem 2020. Segundo o instituto, entre os mais de 5,8 milhões de inscritos para a avaliação, apenas 2,7 milhões compareceram a, pelo menos, um dia de prova. Ainda que tenha sido registrada queda na média geral da redação, tratou-se da prova com maior média entre as áreas do conhecimento – a nota média entre os estudantes foi 588,74.

Vinte e oito participantes obtiveram nota máxima – contra os 53 que tiraram mil na edição anterior – e 87.567 zeraram a redação. A menor média geral entre as provas objetivas foi a de ciências da natureza e suas tecnologias, com 490,39. Na análise de Mariana, foi a prova mais difícil. “Achei extremamente difícil a prova de ciências da natureza, me lascou de uma maneira… Eu não lembro de nada. Mas, achei bacanas as provas de humanas e linguagens. Agora, é esperar para ver se deu certo”, narra ela que, às 20h05, ainda não havia conseguido checar seus resultados.

Em relação ao perfil dos participantes, o Inep indicou que metade dos presentes nos dois dias de prova eram pessoas em situação de vulnerabilidade econômica que receberam isenção da taxa de pagamento por serem membros de família de baixa renda. Outros 688 mil participantes não pagaram inscrições por terem cursado o médio em escolas públicas ou como bolsistas na rede privada. Entre os um milhão de pagantes, apenas 702 mil compareceram. As mulheres são maioria entre os que realmente fizeram a prova – cerca de 1,6 milhão dos 2,7 milhões que compareceram.

Sabe-se, também por meio do levantamento, que 5.787 participantes foram eliminados, sendo que seis deles foram retirados da avaliação por não usar máscara de proteção cobrindo nariz e boca da entrada até a saída do local de prova.


 

Com informações do OTempo