Pulmão artificial ajuda pacientes em estado crítico a vencer a Covid-19

Uso do aparelho no tratamento da doença é realidade em poucos hospitais mineiros e técnica também gera controvérsia entre especialistas por conta do custo elevado e dos riscos

Sem comorbidades, jovem e saudável, por pouco Tamara Miura da Silva, 28, não venceu a Covid-19. Era  dezembro do ano passado, quando alguns sintomas fizeram com que a supervisora buscasse um teste, que detectou a doença. Em menos de três dias, ela evoluiu para a forma grave e precisou ser internada no Hospital Mater Dei, na região Centro-Sul de Belo Horizonte. “Foi tudo muito rápido. Cheguei na unidade com 50% do pulmão comprometido, e no dia seguinte passou para 95%. Praticamente não estava mais funcionando”, recorda.

Intubada com ventilação mecânica em um leito de UTI, a única alternativa que restou à equipe médica foi usar a terapia chamada ECMO – Oxigenação por Membrana Extracorpórea –, a mesma que ficou conhecida após ser adotada pelos médicos que cuidam do artista Paulo Gustavo. “O meu pulmão não estava reagindo à medicação, e as chances de viver era de 1%. Essa seria a última tentativa de salvar a minha vida”, conta. Após oito dias de tratamento com o pulmão artificial, Tamara deixou a unidade. “Nasci de novo”, relata.

Coordenadora da equipe de ECMO da Rede Mater Dei de Saúde, a cardiologista Marina Ribeiro Rocha Fantini explica que o aparelho substitui o pulmão acometido pelo vírus e faz todo o trabalho de troca gasosa – quando o gás carbônico é substituído pelo oxigênio no sangue. Com isso, o órgão pode se recuperar da infecção, sem a necessidade de realizar essa função vital. “Entra em um período de descanso, não é mais agredido pela ventilação mecânica. Essa é a ideia, mas é uma terapia que precisa ser feita de forma precoce, para que traga bons resultados ao paciente em um pulmão com quadro reversível”, explicou.

Com o equipamento, o sangue do paciente é bombeado para fora do corpo e a membrana artificial realizada todo o processo. A técnica já é utilizada desde 1971 no mundo, mas ganhou uma nova função após a chegada da pandemia do coronavírus. E no hospital, teve um sucesso enorme: dos 11 pacientes submetidos ao procedimento, nove conseguiram se recuperar da doença. “Para conseguir fazer uma ECMO bem feita, precisa de um time multidisciplinar, sendo cada um com um papel. Essa organização é uma coisa muito complicada na medicina”, enfatizou.

Sem o time altamente qualificado, a taxa de mortalidade com a técnica pode chegar a 80%, conforme estudos publicados nos últimos meses. Porém, a cardiologista lembra ainda que a terapia só é indicada em casos graves, quando a ventilação mecânica e as medicações para recuperar o pulmão não surtem efeito. “Então coloca um paciente em ECMO quando a chance dele não sobreviver é maior do que 60%, porque a própria terapia tem uma mortalidade em torno de 40% quando ela é feita por grupos capacitados e experientes, organizados”, argumentou.

Técnica é ofertada em poucos hospitais

Já o presidente da Sociedade Mineira de Terapia Intensiva, Jorge Luiz da Rocha Paranhos, enfatizou que esse é um recurso introduzido na prática médica há pouco tempo e só dois hospitais mineiros atuam com a terapia. “A grande dificuldade é treinar as equipes. É como colocar uma máquina de hemodiálise e não ter pessoal que consiga ligá-la. Esse aparelho é ainda mais especializado, funciona como um pulmão artificial que vai oxigenar o sangue. As pessoas têm uma falsa ideia de que é possível colocar as tecnologias para funcionar da noite para o dia, o que é impossível”, destacou.

O especialista lembra ainda que a situação atual, em que a ocupação nos hospitais permanece perto de 100% por conta do elevado número de casos graves, dificulta ainda mais a implantação da técnica. “Tem que pensar nisso também, mas tem que fazer uma coisa de cada vez. Os hospitais estão com dificuldades de treinar equipes para montar novos leitos de UTI que suporte essa demanda exagerada provocada pela falta de respeito da população. As estradas estavam cheias no feriado e já estamos prevendo um aumento de internações no final da primeira semana do mês”, declarou.

A entidade vai realizar uma reunião na próxima terça-feira (6) para começar a discutir o assunto. Segundo Paranhos, será realizado um mapeamento sobre a quantidade de ECMOs que existem em Minas Gerais e também o número de equipes especializadas na realização da técnica que pode salvar casos graves.

Custo elevado 

Para o cardiologista Augusto Vilela, o alto custo dificulta a aquisição do aparelho pelas unidades de saúde, principalmente da rede SUS. “É muito difícil um hospital público ter, são somente aqueles mais voltados para pesquisa. Essa membrana é usada quando o paciente está em ventilação mecânica, mas mesmo assim tem dificuldade em eliminar o gás carbônico no sangue. Na pandemia, a técnica começou no pico de casos na Itália e Estados Unidos”, destacou.

Conforme o especialista, a terapia tem custo estimado de R$ 30.000 na rede particular. “Mesmo se todos os hospitais tivessem o ECMO, no melhor cenário, ele não seria usado para todos os pacientes intubados. É como o caso do Paulo Gustavo, que só começou a usar após 10 dias na ventilação mecânica, já que o pulmão dele não conseguia se recuperar. Quando começa a passar de sete dias na intubação sem sinal de melhora, é quando o uso do aparelho começa a ser indicado”.

Já a médica Marina Fantini lembra que o custo de paciente que não foi submetido à ECMO e ficou um longo período internado em um leito de CTI também é alto. “Geralmente gera um gasto muito maior ao plano de saúde, ao hospital. E vai ter ainda uma reabilitação pior, não vai ser reintegrado às atividades normais assim que receber alta comparado a um doente que foi assistido pela técnica”, disse. E o relato da Tamara Miura mostra que, quando bem usada, o procedimento pode ser um sucesso. “Tem casos de pessoas que chegam com 50% do pulmão comprometido e não resistem. Acredito que o ECMO salvou a minha vida”.

Recurso extremo

Uma das poucas unidades da rede pública de saúde que conta com a técnica, o Hospital das Clínicas de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, tem capacidade para atender até seis pacientes simultaneamente com o ECMO. Os resultados alcançados até o momento foram satisfatórios e a técnica só foi usada em pessoas sem comorbidades, com chances reais de recuperação do pulmão. O fisioterapeuta especialista em terapia intensiva pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Marcelo Zager, pontuou que esse é um recurso extremo e está disponível em um número muito restrito de hospitais

“Antes de entrar nesse aparelho, tenta a ventilação mecânica, colocar o paciente na posição prona (de bruços) e quando nada disso funciona, o ECNO vira possibilidade. Mas é algo ainda experimental e tem controvérsias quanto ao uso”, enfatizou. Entre os riscos, o especialista citou sangramentos e efeitos tromboembólicos. “Tem que pesar o custo benefício, já que aumenta o estado inflamatório do sangue, quebra as hemácias”, finalizou.

Questionado sobre a possibilidade de ampliar o uso da terapia na rede pública, o Ministério da Saúde não se pronunciou.

Sequela da Covid-19

Em julho do ano passado, o empresário Kaique Barbanti, 28, estava pronto para receber a alta hospitalar quando descobriu que a Covid-19 tinha provocado uma sequela grave: tromboembolismo pulmonar. Na mesma noite, ele voltou para o CTI de um hospital em Santa Catarina e o único recurso disponível era o pulmão artificial. “Por estar debilitado, meu organismo não estava respondendo a mais uma intubação. Permaneci 23 dias no processo, consegui sobreviver e me recuperei bem”, revelou.

A técnica ainda era nova na unidade de saúde e, dos pacientes que tinha passado pela ECMO, apenas dois tinha sobrevivido, incluindo o Kaique. “A outra pessoa teve muitas sequela. De certa forma, vi que a equipe ainda era inexperiente com o processo. Mas, depois do meu caso, já sobreviveram mais cinco pessoas”.


 

Com informações do OTempo