Cantora mineira faz resgate à cultura afro em Minas: ‘Minha luta é arte’

Luiza novo clipe afromineira
Artista é um dos nomes mais importantes na cultura afromineira (Reprodução/YouTube)

Natural de Tupanuara, também conhecida como Carmopólis de Minas, região Centro-Oeste do estado, a cantora afromineira Luiza da Iola lançou recentemente o clipe da música Mas Eu Voltei, canção de “resgate às origens” que foram construídas na cidade natal, como ela mesma explica.

A artista conta que a produção celebra o retorno após oito anos morando em Belo Horizonte. Composta em 2015, a canção retrata o conceito sankofa que se refere à saga de sair de si, se perder para depois retomar o caminho. Luiza propõe o olhar para dentro e para sua reconexão com seu eu ancestral.

“O que me inspirou compor foi a busca sobre mim, nessas perguntas básicas de quem sou eu, para onde eu vou”, comenta a artista. A ligação com a cultura afromineira não está presente apenas nas canções, Luiza também faz parte da manifestação do Reinado, ou Congado como é conhecido nos Bantos de Minas.

“Minha família é reinadeira, fazemos parte dessa tradição e somos responsáveis por mantê-las”, explica. Toda essa ligação com a história da família e ancestralidade foram o pontapé para o lançamento do clipe. “Quando eu retorno ao Reinado, eu retorno para um caminho que é meu.”

Luiza, recentemente, foi nomeada Rainha Perpétua de Nossa Senhora do Rosário. Essa nomeação é uma das formas de se manter a tradição afro presente no interior de Minas. “Os reis e rainhas perpétuos têm uma responsabilidade eterna de servir a tradição e sua comunidade. Essa responsabilidade é a coroa maior dentro do Reinado, e são passados de geração em geração.”

‘Nossos passos vêm de muito longe’

Colocar a cultura e a história de pessoas negras de Minas em um “lugar humanizado”, com dignidade, valor e lugar na sociedade. Ao explicar que o Reinado é “espaço” de pertencimento para pessoas pretas, Luiza afirma que a tradição vai na contramão da sociedade e homenageia vidas negras da forma como se deveria ser feita todos os dias, em todos os contextos.

“Para nós, da tradição, não estamos em lugar inferior. Mas dentro do contexto social, muitos desses capitães e rainhas estão ocupando, por exemplo, profissões subalternas”.

“É muito dual esses dois mundos. Temos o mundo ancestral, da tradição, que vivemos de outra maneira. E tem essa sociedade a base da opressão, da hierarquia e que reforça esse apagamento e violência contra corpos pretos, como vemos no extermínio contra a juventude negra, na violência obstétrica contra mulheres negras, e em outras questões.”

“Eu vejo que meu trabalho está nesse lugar, de ter que reafirmar o tempo todo que os nossos passos vêm de muito longe. Como nossos mais velhos lutaram e abriram caminhos e tentaram promover melhores condições de vida para nós, é minha responsabilidade contribuir de alguma forma nessa luta. E minha luta é por meio da arte.”

Lembranças, cultura e território

O clipe de Luiza é uma mistura de contação de histórias importantes e saudação à memória das que vieram antes. Dentre os lugares gravados estão a fazenda histórica da Montueira onde nasceu Lúcia Maria de Oliveira, sua mãe biológica, lugar cercado de bambuzal plantados por seu avô, Sebastião José dos Santos.

O trabalho traz ainda registros imagéticos do terreiro da casa de Eunice de Oliveira, sua Tia Birica, mestra cultivos e sabedora das ervas; e da casa onde viveram Norberta Maria Justino, Ivonildes Martinha “Dona Dinica” e sua tataravó, a Matriarca e parteira Maria Cirilo nascida em 1860.

Os nomes dessas mulheres compõem a toponímia urbana da cidade. Luiza afirma que para além das belas locações, o roteiro reafirma o lugar de pertencimento de alguém muito ciente do porquê de sua volta: para servir sua comunidade.

Esta reportagem é uma produção do Programa de Diversidade nas Redações, realizado pela Énois – Laboratório de Jornalismo, com o apoio do Google News Initiative


 

Edição: Roberth Costa

Com informações do site BHZ